Todos um dia quiseram ser o Gandalf


Gentlemen

III

II

Há quem diga que o vestuário é irrelevante...

I'm a men of wealth and taste

Estava a ler Degraus do Parnaso de M.S. Lourenço e a ouvir Scriabin, por Horowitz, quando pensei: "Caramba, tenho mesmo bom gosto!".

Arte de Injuriar

Há várias maneiras de falar de um autor, quase todas elas erróneas e criticamente nulas; todavia, dizer que o autor é uma besta é uma das minhas dilectas: é cómoda e eficaz, se se preservar certo ar de enfado; a esse "prazer desinteressado no desdém", de que falava Borges, O Sábio, devemos grandes, talvez as maiores, páginas de Samuel Johnson e do próprio Borges.
Saramago é uma besta? Mas, meus caros, isso não é relevante.
*
Eu colijo os mais notáveis remoques e, permitam-me a modéstia, invento outros que o não são menos; esses meus ditos produzem, quer pelo seu engenho, quer pela gentileza dos convivas, o mais notável efeito, e asseguram-me um auditório tão agradável quanto conveniente. Conveniente porquê? Meus caros, muita gente bebe socialmente, mas eu, mais civilizado, sou energúmeno socialmente, i.e., se não houvesse esse auditório – tão selecto e, dizem-me, tão desaconselhável a gente grave – não haveriam ditos, não haveria aquele espírito Guermantes, esse espírito que permite desdourar Maeterlinck (sem o ter lido), que Marcel nunca pôde ter.

Self-Portrait

É engraçado que um auto-retrato de Rossetti se pareça mais comigo do que com ele.

Desculpa lá Quevedo, mas tu és uma besta!

Os aedos apenas cantam...
Heraclito de Éfeso
Descobri agora que os castelhanos são uns selvagens e, valha-nos Garcilaso, que (isto é mais grave, ou mais risível) Fernando Pessoa está, de uma maneira qualquer que não alcanço, ligado a essa insignificância que é ser-se português. Acreditar que o Camões salvou o livro a nado é aceitável, mas acreditar que Camões e Pessoa tinham algum interesse na pátria quando escreviam seus versos é, não vejo adjectivo mais simpático, estúpido.
*
Deixo um excerto de um ensaio de Miguel Tamen:
Nenhum cidadão da Argélia sonharia em encontrar a verdadeira descrição do seu país nas
Confissões de Santo Agostinho, apesar do Santo ter nascido, e ter escrito a maior parte da sua obra, naquilo que hoje é a Argélia. Alguns cidadãos de Portugal, todavia, sonham regularmente em encontrar a verdadeira descrição do seu país em Os Lusíadas, um poema épico menos conhecido que as Confissões, escrito por Luís de Camões...

Claude Debussy, "La Cathédrale engloutie", por Arturo Benedetti Michelangeli

Those eccentric bastards!


When I first got into the music business back in the late Seventies there was just one rule. Never do a deal in Portugal. Seemed a bit over the top of us. Weird shit – we just took it in our stride. And did a deal in Portugal. For Vini. Three actually. And they all went dreadfully wrong.Now I have got nothing against bootlegging, not now Manchester has swapped being King Cotton for being King Knock Off, but have you ever asked yourself why they speak Portuguese in Brazil, but Spanish in the rest of South America.Let me tell you.So the story goes, Spain and Portugal were expanding their seaborne empires rapidly around 1500, and there were beginning arguments over who owned what bits of what. Lecomt’s get the Pope to act as peacemaker and find a compromise for us all, said the ambassadors. After many weeks of shuttle diplomacy the Vatican announced the judgement of Solomon. “Now you Portuguese are mostly in Africa and Mozambique and Goa and points East – by and large you Spaniards have got the Americas tied up. What say we draw a line down the middle of the Atlantic Ocean and Spain have everything to the West and Portugal everything to the East.”Good deal they all said and the Pope drew a line down the middle of the Atlantic and the Portuguese drew a line… well just a little further over the left. What the hell, it was still running through sea so who gives a shit.Only ten years later. When they discovered that last big lump of South America that sticks out into the Atlantic… Exactly – the Portuguese had discovered Brazil two years before they went to Rome and had just kept stumm.Now maybe I’m being harsh, but they are weird.When we did the third (doomed) Portuguese deal with the lovely, extremely intelligent and equally unfathomable Miguel Esteves Cardoso it was for a low budget album from which we include five pieces here.Friends in Portugal. Friends in Portugal? I once complained to my first wife that the album had set Miguel and his mates’ company on its way, and yet when Vini played Lisbon six months later not one of them turned up for the gig.Why should they have turned up?Honour, gratitude, debt.How stupid you are, they’re Portuguese, they don’t have such mundane concepts.And they have this other thing, Saudade. It’s the national mood, a sense of something lost, of intense nostalgia and yearning. Senor Cardoso did his PhD at Manchester on the influence of Saudade on Portuguese Politics in the 10th to 15th centuries. You see, cool guy, a guy to do a deal with.I always think that saudade is why the Portuguese as much as any country in the world, take Vini’s intensely romantic guitar to their hearts. Damn sight better than their Fado folk song tradition which is more whining than romantic.Although Vini wrote a track in this period which was called Saudade that’s more typical of our carelessness with titles. The peace Favourite Descending Intervals from the same collection much more connects to that saudade spirit.*
(*) O texto ficou num só parágrafo não sei por que razão; vou pedir ajuda ao Padre Brown para resolver este caso.

(Tony Wilson, texto retirado daqui, o título é da minha autoria)

Aviso à trindade

O conto que escrevi ficou antes de posts mais antigos. Quererá isto dizer alguma coisa? Vou ali ler Bloy e já venho.

Aforismos de Sobremesa, por Herbert Quain

Quando se deixar de ler Sir Thomas Browne a civilização oscila, mas quando ninguém souber fazer um nó de gravata vitoriano a civilização acabou.

Kubla Khan

A tradução é fraquinha e parcial, transcrevo, por isso, o poema em inglês:

In Xanadu did Kubla Khan
A stately pleasure-dome decree:
Where Alph, the sacred river, ran
Through caverns measureless to man
Down to a sunless sea. 5
So twice five miles of fertile ground
With walls and towers were girdled round:
And here were gardens bright with sinuous rills,
Where blossomed many an incense-bearing tree;
And here were forests ancient as the hills, 10
Enfolding sunny spots of greenery.

But oh! that deep romantic chasm which slanted
Down the green hill athwart a cedarn cover!
A savage place! as holy and enchanted
As e'er beneath a waning moon was haunted 15
By woman wailing for her demon-lover!
And from this chasm, with ceaseless turmoil seething,
As if this earth in fast thick pants were breathing,
A mighty fountain momently was forced:
Amid whose swift half-intermitted burst 20
Huge fragments vaulted like rebounding hail,
Or chaffy grain beneath the thresher's flail:
And 'mid these dancing rocks at once and ever
It flung up momently the sacred river.
Five miles meandering with a mazy motion 25
Through wood and dale the sacred river ran,
Then reached the caverns measureless to man,
And sank in tumult to a lifeless ocean:
And 'mid this tumult Kubla heard from far
Ancestral voices prophesying war! 30

The shadow of the dome of pleasure
Floated midway on the waves;
Where was heard the mingled measure
From the fountain and the caves.
It was a miracle of rare device, 35
A sunny pleasure-dome with caves of ice!

A damsel with a dulcimer
In a vision once I saw:
It was an Abyssinian maid,
And on her dulcimer she played, 40
Singing of Mount Abora.
Could I revive within me.
Her symphony and song,
To such a deep delight 'twould win me,
That with music loud and long, 45
I would build that dome in air,
That sunny dome! those caves of ice!
And all who heard should see them there,
And all should cry, Beware! Beware!
His flashing eyes, his floating hair! 50
Weave a circle round him thrice,
And close your eyes with holy dread,
For he on honey-dew hath fed,
And drunk the milk of Paradise.

A tradução:

Em Xanadu, Kubla Khan ordenou
Um sumptuoso palácio levantar:
Donde Alph*, o rio sagrado, mana,
Por cavernas de grandeza desumana,
Até um sombrio mar.
Duas vezes cinco milhas de terras produtivas
Por muros e torres eram cingidas.
E havia jardins brilhantes com ribeiros desiguais,
Onde florescia, viçosa, uma árvore turífera;
E havia florestas como os montes ancestrais,
Envolvendo salpicos soalheiros de verdura.

(*) Alph poderia ser traduzido por Alfeu; Píndaro, na Primeira Ode Olímpica e Homero na Ilíada falam do rio Alfeu.

(Samuel Taylor Coleridge, Ancient Mariner and Select Poems, Kubla Khan, trad. Matias Ayres)

Invectiva contra os Cisnes

A alma, ó patos, voa para lá dos jardins
E muito para lá dos desacordos do vento.

Uma chuva brônzea descendendo do sol marca
A morte do Verão, que nesse tempo perdura

Como quem rabisca um desinteressado testamento
De subtilezas douradas e caricaturas de Pafos,

Legando vossas penas brancas à lua
E dando vossas brandas emoções ao ar.

Olhai, já nas grandes praças
Os corvos ungem as estátuas com merda.

E a alma, ó patos, estando sozinha, voa
Para lá dos vossos frios carros, para os céus
(Wallace Stevens, Harmonium, Invective against Swans, trad. Matias Ayres)

Que farei eu com esta espada?







À espada em tuas mãos achada
Teu olhar desce.
“Que farei eu com esta espada?”
Ergueste-a, e fez-se
.

Fernando Pessoa, O Conde D. Henrique

I have heard the cloudy thunder: Where is power?
John Keats, Hyperion, III


Do singular sonho que Cesare teve nada sei concluir. Prognose?
Conto o sonho:
Numa quietude de acácias, Cesare perlustrava a pátina que vestia de ancestralidade as estátuas de uma álea. Quando viu a estátua de um cavalheiro de Borgonha, parou. Ouviu a supuração de uma frase: “O hermetismo anagógico, que reflecte a pugna pela marginalidade redentora, pela liberdade, é aquilo que define Llansol como uma escritora de ideias”. Estavam 9 pessoas ali reunidas: uma para cada círculo do Inferno, ché la diritta via era smarrita.
Cesare assustou-se. De um trovão desceu uma espada: “Que farei eu com esta espada”, perguntou ao vento. O Zéfiro sussurrou-lhe uma música de Scriabin ao ouvido. Ele correu, levantou a espada e, com gestos suaves, fez cair todas as cabeças da infame guilda.
Acordou. Marion Cotillard acariciava-o.

Aviso aos meus três leitores

Este blogue estava parado, pois ninguém teve a gentileza de me solicitar a explicação da passagem de Flaubert, que diligentemente transcrevi. Há algo a ser explicado? Claro, não há colibris na Europa, caramba! Esses colibris foram colocados, pelo mestre da subtileza, para denotar as leituras românticas (Chateaubriand fala em colibris) de Emma. Se não me deixam exibir a minha vaga erudição, não brinco mais.

*

O post anterior sugere uma mudança de tom neste blogue. Agora dedicar-me-ei ao insulto e ao panegírico; o padrão de escrita, até agora regular, será anárquico: algumas traduções, aforismos, contos policiais, ensaios-blague (a minha especialidade), piadas, pastiches, etc.. Prometo uma tradução do On Dreams de Sir Thomas Browne, um ensaio sobre a superioridade de Arturo Benedetti Michelangeli (como não vou cumprir ainda prometo mais, querem ver?), uma contagem das vírgulas na Recherche, uma versão anotada das notas de leitura de Coleridge, um ciclo de sonetos swinburnianos, uma versão de Opiário em esperanto, um ensaio sobre a influência de Escoto Erígeno e Boécio no Harry Potter, e menos, muito menos. Esperem.

II.

The appearance of felicitous fulfilment of function

(Edward Burne-Jones, King Cophetua and the Beggar Maid)

Arte de Injuriar

Não faz ideia do que é o inferno, Madame. Recebemos poucas notícias oficiais de lá. Mas que digam que as pobres almas que lá estão em baixo têm de ler todos os maus sermões que se imprimem cá em cima – isso é calúnia.

(Heinrich Heine, Ideias. O livro de Le Grand, trad. Fernanda Mota Alves)

Clube dos Entediados

(Evelyn Waugh, 1903-1966)

Novo Membro do Clube dos Entediados

Para os que pensam que o Brasil é só Machado de Assis, Manuel Bandeira e Luana Piovani, conheçam Bruno Garschagen; conversei com este cavalheiro sobre Yeats, whisky irlandês, e sobre a suma importância do windsor tie knot na obra de Borges – tudo com leveza e humor, como convém a dois bons conversadores. Leiam-lhe a prosa, pois, como Emerson disse, ler dá-nos a possibilidade de conviver com os homens, vivos e mortos, que merecem o nosso apreço.

The appearance of felicitous fulfilment of function

(Philip Leslie Hale)

Livro de Passagens

The Embankment

Once, in finesse if fiddles found I ecstasy,
In the flash of gold heels on the hard pavement
Now see I
That warmth's the very stuff of poetry.
Oh, God, make small
The star-eaten blanket of the sky,
That I may fold it round me and in comfort lie.

(T.E. Hulme)

Clube dos Entediados

(Jorge Luis Borges, 1899-1986)

Aforismos de Sobremesa, por Herbert Quain

Tácito é como as gravatas: só serve para impressionar.

The appearance of felicitous fulfilment of function

(Vittore Carpaccio, Cavaliere)

Arte de Injuriar

Que homem teria sido Balzac se soubesse escrever! Essa era a sua única falha.

(Gustave Flaubert citado por Herbert Quain, April March)

Clube dos Entediados

(Oscar Wilde, 1854-1900)

Isto cansa

Os blogues dão trabalho e até os melhores se cansam, mas talvez estejam – como na literatura – a utilizar o fim como tema, adiando a morte absoluta. Estes senhores já acabaram com melhor blogue de sempre: o Casmurro, que juntava: Abel Barros Baptista, Osvaldo M. Silvestre, Gustavo Rubim, Fernando Matos Oliveira, Luís Quintais, Manuel Portela, Pedro Serra, Clara Antunes e Luís Mourão, ou seja, os melhores ensaístas portugueses (falta Miguel Tamen, claro). Agora, se acabarem também com este, restam-me apenas três blogues: Estado Civil, A Causa Foi Modificada e o Bomba Inteligente.

The appearance of felicitous fulfilment of function

(Berthe Morisot, Reading)

Como é que esta escapou a Aristóteles?

Alguns homens julgaram que um rei podia fazer chover; nós dizemos que isto contradiz toda a experiência. Hoje julga-se que os aviões e o rádio, etc., são meios para assegurar maior contacto entre os povos e difundir a cultura.

(Ludwig Wittgenstein, Da Certeza, trad. Maria Elisa Costa)

Clube dos Entediados

(Ludwig Wittgenstein, 1889-1951)

Hermetismo & Estultícia

Quando ouço falar de poesia contemporânea portuguesa e dos discípulos de Herberto Helder lembro-me – não sei por que razão – desta frase de John Ashbery: On the one hand I am an important poet, read by younger writers, and on the other hand, nobody understands me.
Daniel Jonas – o melhor poeta português contemporâneo – tem um ensaio sobre Ashbery: John Ashbery: O Papel Convexo.

The appearance of felicitous fulfilment of function (Ruskin não gostaria de ver esta frase aplicada a Whistler)

(James Abbott McNeill Whistler, Self-Portrait)

Livro de Passagens

He noted that oftener than in France and in Germany his artist looked like a gentleman - that is like a English one - while, certainly outside a few exceptions, his gentleman didn't look like an artist.

(Henry James, The Lesson of the Master)

Clube dos Entediados

(Henry James, 1843-1916)

Literatura Contemporânea

A literatura contemporânea provoca indisposições a toda gente de bem. A propósito, sabem quem ganhou o grande prémio APE? Luís Mourão explica.
Parece-me que as pessoas menos atentas não encontrarão a relação entre as duas frases – o que é bom, pois acharão o texto profundo.

The appearance of felicitous fulfilment of function

(Joseph Mallord William Turner, Rain, Steam and Speed - The Great Western Railway)

Arte de Injuriar

A sua esposa, cavalheiro, com o pretexto de que trabalha num lupanar, vende géneros de contrabando.
(Samuel Johnson citado por Jorge Luis Borges, Arte de Injuriar, trad. José Colaço Barreiros)

Clube dos Entediados

(Samuel Johnson, 1709-1784)

Aristocracia

Nietzsche profetizou um tempo em que ser culto seria ordinário; assim, a aristocracia dedicar-se-ia a ser denodadamente inculta. Esta reflexão faz-me lembrar este poema:
Soma
Não discuto se sou feliz ou não.
Mas de uma coisa faço por lembrar-me sempre:
Que nessa grande soma - a deles, que eu detesto -
De tantas e tantas parcelas, não sou
Uma delas. Eu nunca fui contado
Para a soma total. Esta alegria basta.

(Constantino Cavafy, 90 e mais quatro poemas, trad. Jorge de Sena)

The appearance of felicitous fulfilment of function

(Bartolomé Esteban Murillo, Mujeres en la ventana)

Livro de Passagens

Desciam as sombras da tarde; o Sol, no horizonte, passava por entre os ramos, deslumbrando-lhe a vista. Em volta dela, aqui e além, na folhagem ou no solo, manchas luminosas tremulavam, como colibris que, voando, fossem soltando as penas.

(Gustave Flaubert, Madame Bovary, trad. João Pedro de Andrade)

Clube dos Entediados

(Gustave Flaubert, 1821-1880)

Do Aborrecimento

Isto de viver é aborrecido; mas para um ínfimo número de pessoas o aborrecimento é suportável, e até agradável. A esse prístino clube – que ninguém julgará aconselhável – pertencem Samuel Johnson, Machado de Assis, Groussac, Borges...
Eu – opiniático, especioso e, como todo o cavalheiro de bem, cultor de metafísica de charuto e devaneios de sobremesa – pertenço a esse clube que, de tão distinto, nem chega a sê-lo deveras.

The appearance of felicitous fulfilment of function

(Dante Gabriel Rossetti, Mrs. William Morris or The Blue Silk Dress)

Como é que esta escapou a Aristóteles?

Volúpia do aborrecimento: decora esta expressão, leitor; guarda-a, examina-a, e se não chegares a entendê-la, podes concluir que ignoras uma das sensações mais subtis desse mundo...

(Joaquim Maria Machado de Assis, Memórias Póstumas de Brás Cubas)

Clube dos Entediados

(Joaquim Maria Machado de Assis, 1839-1908)